Herança
direta da cultura africana, a expressão oral
é uma força comunicativa aser potencializada.
Jamais como negação da escrita, mas como
afirmação de independência.A oralidade
está associada ao corpo porque é através
da voz, da memória e da música,por exemplo,
que nos comunicamos e nos identificamos com o
próximo.
Griots são contadores de histórias
fundamentais para a permanência da
humanidade:são como um acervo vivo de um povo.
Carregam nos seus corpos lendas, feitos,
cançõese lições de vida de uma
população, envoltos numa magia própria,
específica dos queencantam com o corpo e com sua
oralidade? (Gregório Filho)
Circularidade
Todos
nós conhecemos o prazer que advém do ato de
sentar em roda com amigos paracontar histórias,
fazer música, brincar com jogos ou manifestar a
religiosidade.Os próprios valores
civilizatórios são bons exemplo de
circularidade. A vida é cíclica.Podemos estar
muito bem agora e numa posição ruim depois
até que voltemos a um estadosatisfatório. A
humanidade inteira permanece unida por este sentimento
circular.
O terreiro tem o papel importantíssimo de
resgatar a Mãe África, mesmo que
atravésde uma nostalgia, de um lamento. E é
esse território representado pelo círculo
quevai reaparecer em várias atividades, de cunho
religioso e também no espaço lúdico.Essa
mesma roda está presente na capoeira, no jongo, no
tambor de crioula, na girada umbanda e no
samba?
Religiosidade
Para a
nação afro-descendente, religiosidade é
mais do que religião: é um
exercíciopermanente de respeito à vida e
doação ao próximo. A propósito, em
tempos de tantaviolência gratuita, vale pontuar
que a vida é um dom divino, de caráter
transcendental,e deve ser usada para cuidar de si e do
outro.
A cada dia acontece uma lição de vida.
Aprende-se de tudo, a comunicação com osmais
velhos, com os mais novos, o trabalho em grupo
fazendo-se o que gosta ou quenão gosta; e,
sobretudo, aprende-se o gosto pela vida, numa estreita
relação como Orixá? (Mãe
Stella)
Corporeidade
Este
conceito nos ensina a respeitar cada milímetro do
corpo humano, que deve estarpresente em cada
ação e em diálogo com outros corpos. As
demandas corporais devemser consideradas. Afinal, o
corpo atua, registra nele próprio a memória
de váriasmaneiras, seja através da
dança, da brincadeira, do desenho, da escrita, da
fala.Das músicas às danças, com tudo o
que elas anunciam e denunciam. Os corpos
dançantesrevelam memórias coletivas.
Aprendemos que as danças circulam e que o corpo
informa sobre a vida de cada dançarino?(Antonio
Nóbrega)
Musicalidade
Famosa no
mundo inteiro pela sua qualidade inconteste, a
música brasileira tem osdois pés bem fincados
no Continente Negro. Quem resiste aos encantos de uma
batucada?A musicalidade, a dimensão do corpo que
dança e vibra em resposta aos sons só
reafirmaa consciência de que o corpo humano
também é melódico e potencializa a
musicalidadecomo um valor.
O som é o ponto de partida dos primeiros
habitantes do globo terrestre rumo à
formaçãodos primeiros agrupamentos humanos
que, no curso da evolução, irão
constituir anossa civilização. A
importância da música, da qual o som é a
matéria-prima, é superiorà descoberta do
fogo, ou à invenção da roda ou da
imprensa? (Charles Murray)
Cooperativismo/Comunitarismo
Falar sobre cultura
negra requer usar a palavra ?coletivo?. Pensar em
africanidadesé pensar em comunidade, em
diversidade, em grupo. Imaginem o que teria
acontecidocom a população negra num sistema
escravocrata se houvessem desprezado o princípioda
parceria, do diálogo, da cooperação? E
ainda nos dias que corre, nesta sociedaderacista
excludente?
Durante séculos os povos da África Central
tinham lidado com a diversidade
étnica,desenvolvido tradições religiosas
comuns e compartilhado formas culturais.
Essashabilidades eles as transmitiram para o Brasil,
onde utilizaram indiscutivelmentetécnicas
similares para lidar com a diversidade cultural?
(Karasch)
Ancestralidade
Quando
se pensa em ancestralidade, faz-se uma imediata ponte
com a história e amemória. Convém
não esquecer o passado. Não há
fórmulas complexas para vivenciaro que é, de
fato, a ancestralidade. Quer provar? Então saia em
busca do relato dosmais velhos, que trazem o rico
imaginário afro-brasileiro.
?A memória compõe nossa identidade. É
por intermédio da memória que
construímosnossa história. Ao construir a
memória, construímos lembrança, que para
existirprecisa do outro e necessita ser compartilhada.
Assim também é a obra de arte?
(FranklinEsparth Pedroso)
Memória
Para
despertar o sentimento de afro-brasilidade e,
sobretudo, de orgulho ao exibi-la,é
necessário mexer no eixo do racismo e da
memória: o racismo como algo a ser enfrentadoe a
memória para que a presença africana que
habita em nós possa emergir livremente.
Numa sociedade que exclui, oprime, oculta conflitos
e as diferenças sob a ideologiada igualdade, ainda
que seja um fato biológico, ainda que sejamos
memoriosos e memorialistas,a memória é um
valor, um direito a conquistar? (Marilena
Chauí)
Ludicidade
Entre suas
variadas utilidades, os jogos sempre viabilizaram o
aprendizado. Tambémserviram para transmitir as
conquistas da sociedade em diversos campos do
conhecimento.Quando os membros mais velhos de um grupo
revelam aos jovens como funciona um determinadojogo de
tabuleiro, por exemplo, eles transmitem uma série
de conhecimentos que fazemparte do patrimônio
cultural daquele grupo.
Antigamente, o jogo era associado a ritos
mágicos e sagrados. Dependendo do lugar,era
reservado apenas para os homens, ou para os homens mais
velhos, ou, ainda, eraexclusivo dos sacerdotes? (Os
Melhores Jogos do Mundo)
Energia Vital
(axé)
O princípio do axé é a
vontade de viver e aprender com vigor, alegria e brilho
noolho, acreditando na força do presente. Em nada
se assemelha a normas, burocracias,métodos
rígidos e imutáveis. Pelo contrário.
Tudo é uma possibilidade para quemé guiado
pelo axé.
Perdi os dedos, mas não a força e a
vontade de esculpir. Aprendi a usar os joelhoscomo quem
usa os pés. Amarrei os instrumentos às
mãos para continuar a trabalhar.Afinal, a
criação nasce na cabeça, não na
ponta dos dedos? (Heróis de Todo Mundo,programa
sobre Aleijadinho)
Os afro-brasileiros estabeleceram, a
partir da observação do que há de melhor
nasua cultura, dez valores civilizatórios para
viver de acordo. Na verdade, são
pequenasbússolas que devem ser consultadas
diariamente, visto que fogem à linearidade ese
interpenetram, obedecendo a fluxos de conexões de
variadas naturezas.